Ilustração de Uiara Coelho, especialmente, para esta crônica.
Uma das pessoas mais importantes
de sua vida estava lá, naquele dia de sábado, muita luz e calor. O céu
infinito. Um azul claro, sem nuvens. Compartilhava, com você, medo e desejo,
insegurança e vergonha. E essa, que é uma das pessoas mais importantes de sua
vida, caminhava rápido, ao seu lado, segurando a cela e o guidão de sua
primeira bicicleta, que não, necessariamente, era nova, pois, em muitos casos,
era um modelo ultrapassado, herdado de um irmão mais velho.
Tinha muita gente torcendo pela
sua conquista. A rua inteira ao redor, gritava “vai” e provocava, em você, um
misto de motivação e medo de decepcionar. E uma pessoa fundamental, em sua
vida, deixou o descanso do fim de semana para participar de uma aventura que
não era dela porque acreditava no seu potencial para alcançar o equilíbrio, a
estrada e as longas distâncias.
Aprender a andar de bicicleta já
foi algo importante na vida de uma criança. Era uma espécie de certificado de
sua capacidade para a superação, principalmente, dos próprios medos, e lhe
conferia habilitação para segurar a cela e o guidão para outras crianças.
Quem lhe ensinou a andar de
bicicleta?
Essas, provavelmente, são pessoas
muito importantes na sua história porque lhe ensinaram sobre superação, coragem
e confiança, tanto em si mesmo, quanto nos outros.
Creio que relembrá-las é
resgatar-se. É trazer à tona o poder de realização que, com o passar dos anos e a chegada da
vida adulta, vamos oprimindo em nosso íntimo.
Tudo é símbolo. Aprender a andar
de bicicleta é um símbolo. Estou em busca desse resgate simbólico. Espero
voltar. Quero alcançar umas longas distâncias em novas estradas, consciente e
confiante em meu equilíbrio. E, claro, quero estar apta para segurar a cela e o
guidão dos amigos (e inimigos), se for necessário.
Dedicado a Silvana, Joaquim Cícero, Lourdinha Rocha e Graça com quem aprendi a andar de bicicleta.
O amor existe. Da forma mais trivial possível. É preciso
entender isso. Geralmente, não é intenso, mas é tranquilo. Seguro. É como um
porto, local de partida e chegada dos navios. É a âncora que impede que a água
do mar leve a embarcação sem controle e sem destino. É o doce ninho. Quentinho
e confortável, mas modesto. Esqueça os lençóis vermelhos de seda. A mulher sensual
que você conheceu, no bar, em um sábado à noite. A namorada, sempre depilada.
As lingeries rendadas e provocantes. Fio dental é muito desconfortável. Lycra é
quente, provoca alergias e corrimentos. Não faz bem à saúde vaginal. Aliás,
esqueça tudo o que você viu nos filmes pornôs. Em Malhação. Na novela das oito.
Separe, ficção de realidade. E não espere muita emoção de um buquê de flores. De
um jantar à luz de velas. De uma declaração pública. Eu pensava que era como
nos filmes, que passear de barquinho com um cara lendo poesia para você, era o
êxtase. Mas, não senti o êxtase e caí na real. Parei de fantasiar. E, só para
finalizar a lista, sabe aquele ator, abdômen de tanquinho, braços fortes, rosto
perfeito, que faz propaganda de cueca? Desista. O amor tem barriguinha saliente,
cabelo assanhado e cara amassada. Dorme de maquiagem e acorda com o rímel
escorrendo embaixo do olho. Usa calcinha de algodão. Tem um hálito desagradável
quando acorda. Lava louça. Varre casa. Limpa banheiro. Engorda. Tem TPM. Tem
depressão. Tem mau-humor. E tem muitas
responsabilidades. Mas, a característica fundamental do amor é a trivialidade. E
vou dizer a inspiração para essa conclusão. Recebi um torpedo, por engano,
precisamente, no dia 30 de agosto, às 8:20 da manhã. Em caixa alta. BOM DIA,
AMOR. TRAZ PÃO. BJ.TE AMO. Logo, percebi que não era para mim. E, mesmo assim,
fiquei super-feliz. Era uma amiga do
colégio, mãe de dois filhos. Quase não nos vemos. Infelizmente, nos
distanciamos pelos compromissos diários, escolhas, rumos que a vida toma. Embora
o carinho permaneça. A mensagem, claro, era para o marido. Respondi, dizendo
que era engano, senão ela e as crianças iam ficar sem café da manhã. Não sei
se, nesse dia, o pão chegou a tempo. Se é que chegou. Só, sei que, nesse dia,
ficou mais compreensível, para mim, que o lindo de amar é simples. E trivial.
Ilustração de Uiara Coelho. Ela pinta com blushes, sombras e batons.
A solidão da casa e o vento frio na
varanda convidaram-na aquele sentimento. A noite estava acolhedora, tanto
quanto a cadeira de balanço bem posicionada em frente ao jardim. Os botões de
rosas abriam-se. Ao mesmo tempo, a intuição de ser mãe desabrochava nos seus
pensamentos. Era respirar profundamente, fechar os olhos e sentir a maternidade
dentro do útero.
A criança não nascera, mas já fora
gerada em seu instinto de amar.
Cuidadosamente, acomodou esse filho imaginário entre os seios que um dia
o amamentariam e sentou-se na balançadeira. Cantou para o rebento, ainda sem
nome, canções falando de beleza, de natureza, de inocência. Com a voz leve.
Feminina. Materna.
O abraço era de cumplicidade. Embora a
criatura não estivesse materializada em seus braços, através de uma forma
visível, o abraço existia e estava dentro daquele corpo de mulher de vinte e
poucos anos, junto com o repertório musical de ninar, o acalanto, as renúncias
e os ensinamentos sobre Deus. Todos eles, ansiosos por aflorarem em totalidade
e completude.
- Como seria gostoso sentir o peso de
uma criatura na barriga! E andar devagar, pacientemente, pois toda espécie de
espera é uma grande prova de amor. E quanto saboroso seria preservar-se pelo
fato de guardar em seu corpo um outro corpo. Indefeso. Ela o defenderia. O
cuidaria incansavelmente. – Aconchegava ao peito os pensamentos, com mais
contato. Pele sobre pele. Como se fosse um bebê.
Cantou até a criança dormir. Dormiu.
Puro e acarinhado. Quem a visse, naquela sala, pensaria vê-la sozinha. Mas uma
mulher, durante seus momentos de desabrocho, terá alimento no seio, inquietação
no ventre e estará sempre acompanhada dos seus filhos. Mesmo não nascidos.
A felicidade é silenciosa. Discreta. Não grita para o mundo inteiro ouvir.
A vida inteira achei que felicidade e êxtase eram a mesma coisa. Extravasamento. Transbordar.
Mas aprendi com o tempo, o passar dos anos e todos os momentos de dor, que felicidade não se estampa. É algo muito íntimo e particular.
A felicidade só se conjuga no tempo presente. No passado, é sujeito inexistente. No futuro, é verbo intransitivo.
Transita no hoje. No agora. Em trânsito permanente. Um contraditório ‘permanente’ que pertence exclusivamente ao hoje. No já. No aqui. Da forma mais trivial, simples e humana.
Fosca. Opaca. Leve. Tranquila. Sem dilatação de pupila.
A gente tem pressa de ser feliz e sonha em viver uma grande história de amor e acha que o clímax é a meta e confunde intensidade com desespero e desespero com felicidade. Mas o apogeu é sucedido pela queda. E é mais fácil aprender sobre a felicidade com o declínio.
Um indefinível calmo e manso. Sentimento de autonomia e liberdade. De despretensão.
Desconstrução de aparências, sucessos, conveniências, cargos, títulos, do tempo...
Não quero ser melhor que ninguém. Quero ser.
Nem quero fazer de uma forma genial. Quero fazer, sem tensão, aceitando e respeitando os meus limites.
Não sou especialista em felicidade. Nem quero ser. Para mim, felicidade e tempo são duas obsessões destrutivas.
A palavra 'felicidade' traz consigo tensão, cobrança, aparência. Obrigação. Fantasia. Ficção. E também arrasta uma corrente muito pesada chamada 'competitividade'.
Libertar-se do compromisso carrasco de ser feliz, contraditoriamente, já é ser feliz.
Ontem estive na comunidade quilombola de Conceição das Crioulas, 2º distrito de Salgueiro. Quantos rostos lindos! E quantos cabelos encantadores. Fiquei maravilhada com os penteados das mulheres de todas as idades. Somos isso: cachos, África, ondas, curvas, volume.
Para algumas pessoas, uma tatuagem é muito mais do que um elemento estético. É simbolismo. Uma forma de externar algum sentimento, certeza ou filosofia de vida. No caso da jornalista Mariana Leite, fidelidade, estabilidade e firmeza são algumas das convicções nas quais acredita e que, além de gravadas na alma, estão marcadas na própria pele.
Esposa de Freddy Albuquerque, um dos proprietários do estúdioRec Ink Tattoo,tatuou uma caricatura dela e do esposo. Um sinal de amor. Literalmente, sentimentos à flor da pele. Ao todo são11 desenhos espalhados pelo corpo. Entre Rosas, andorinha, âncora, ideograma chinês e uma gueixa feita, especialmente, para concorrer em uma convenção de tatuagem.
E me veio, como uma luva, Chico Buarque.
Da esquerda para a direita, andorinha, flores e carinha de um personagem do anime Cyber Marionets. Mariana, em seu casório, com o noivo, o tatuador Freddy Albuquerque, autor da tatuagem mais recente da moça, a âncora, que significa fidelidade, estabilidade e firmeza.
Estilo new school é influeciado pela arte urbana. Cores chamativas que lembram grafitagem.
Âncora feita recentemente pelo maridão. A próxima tattoo será outra andorinha.
Andorinhas:
"Significa, basicamente, boa sorte e liberdade, mas também pode representar o amor verdadeiro, já que as andorinhas só possuem um parceiro pelo resto da vida. Aí, cabe ao tatuado definir se esse amor é pela família, amigos, namorada(o), esposa(o) e por aí vai."
Na composição da andorinha, Mari utilizou o estilo new school: cores fortes e chamativas e uma estética que lembra a arte urbana.
Âncora:
"É um símbolo old school que remete à velha escola da tatuagem. Ela tem representação de algo firme e seguro, mas também pode representar alguém agradecendo por sua atual estabilidade, fidelidade. Além de homenagear o estilo a que pertence, a escolhi pelo fato de estar sempre segura das minhas decisões, tanto no campo afetivo quanto no profissional." Feita pelo maridão.
A primeira tattoo:
"Sempre gostei de tatuagens e foi para homenagear uma banda que amo muito, Legião Urbana, que decidi fazer a minha primeira tatuagem, um violão que foi capa do Disco "As Quatro Estações". Essa tattoo, atualmente, está coberta, mas o carinho pela banda continua o mesmo".
"O que será que me dá Que me bole por dentro, será que me dá Que brota à flor da pele, será que me dá E que me sobe às faces e me faz corar E que me salta aos olhos a me atraiçoar E que me aperta o peito e me faz confessar O que não tem mais jeito de dissimular"
"Quero ser a cicatriz Risonha e corrosiva Marcada a frio Ferro e fogo Em carne viva..." (Tatuagem, Chico Buarque)
As postagens nesse blog sempre me fazem referência a uma música. Chico Buarque inspirou-me dessa vez. Há muito tempo que tenho vontade de fazer uma tatuagem. Vez ou outra estou procurando imagens no google que me inspirem coragem. E, numa dessas pesquisas, tive a ideia de aprofundar o assunto aqui. Primeiramente, conversei com Mariana Leite (M.L) que é casada com um dos proprietários do Rec Ink Tattoo, Freddy Albuquerque. Mari entende bem do assunto porque acompanha sempre Freddy e também porque tem várias tatuagens. Depois, reuni umas fotografias de amigas minhas belas tatuadas. Vou fazendo várias postagens para ficar mais didático e facilitar a leitura.
Que cuidados, com relação à saúde,
higiene, o tatuador deve ter na hora de fazer a tatuagem?
M. L. - Os tatuadores
devem usar luvas, máscaras e capotes. As agulhas são descartáveis. Lá no
estúdio, até as biqueiras são descartáveis. Mas para quem usa bico de aço
cirúrgico tem que ser autoclavado (esterilizado). Esses equipamentos garantem a
saúde do cliente e do artista.
O que são biqueiras?
M. L. - Biqueira é como se
fosse uma caneta.
Como se estabelecem os preços? É por
tempo gasto, por sessão, por tamanho da tatuagem?
M. L. - Por tempo não, mas
é variado. A maioria das vezes é por tamanho, mas se uma tattoo é muito grande
e o cliente não pode pagar toda de uma vez, ele pode optar por pagar por sessão.
O preço mínimo do estúdio é R$ 120,00.
Quais são as tatuagens que mais saem
entre as meninas?
M. L. - Flores, símbolos
do infinito, frases, estrelas, gatos, coroas, fadinhas, borboletas, desenhos
new school...
O que seriam desenhos new school?
M. L. - As tattoos New
School tem cores fortes e chamativas. A arte urbana é muito presente em elementos
como grafitagens, HQs, Cartoon e Pop-art.
Vocês fazem tatuagem em menores de 18
anos?
M. L. - Não fazemos
tatuagem em menores. É muita dor de cabeça. Mesmo que a mãe vá e diga: eu
deixo! Não fazemos.
Femininas e tatuadas
Reuni algumas tattoos delicadas e femininas, de amigas minhas, e o que elas dizem sobre o desenho que escolheram:
Lírios - "Significam a vida, pois elas estão brotando
e a coroa é porque minha família é a família Reis."
Daise Vas - Empresária de moda
Recife-PE
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Sofrosine
"Em grego Sophrosyne - etimologicamente significa saudável de mente, auto-controle ou moderação guiados pelo conhecimento e equilíbrio. Poeta romano Juvenal, posteriormente, interpretou sophrosyne como "mens sana in corpore sano" ("uma mente sã num corpo são ")".
Rosa do infinito
"Vários infinitos".Triquetra
"É um simbolo originário das tradições Celtas. Ele representa as três faces da Grande Mãe, a energia criadora do universo: a Virgem, a Mãe e a Anciã. Também representava as estações do ano, que antigamente eram divididas em três fases - primavera, verão e inverno. Era um símbolo muito comum na civilização Celta pelo seu enorme poder de proteção. Foi plagiado pelo cristianismo, para representar a Santíssima Trindade".
Milena Evangelista - Jornalista e produtora cultural
Recife-PE
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Coração rendado
"Eu tinha vontade de fazer uma primeira tattoo e não sabia o quê. Queria mostrar algo que eu gostasse ou admirasse.Vendo um livro que tenho de Ronaldo Fraga, estilista, encontrei esse desenho de coração em uma de suas peças. É um coração rendado. Pesquisei e no site havia essa ilustração. Levei a referência para o tatuador. É meio para retratar minha paixão por moda, costura, tecido e também lembra minha mãe, que era costureira, além de ser uma ilustração de um profissional que gosto muito".
Camila Lopes - Jornalista, fotógrafa e produtora de eventos
P&B e romantismo têm tudo a ver. Some-se a isso a musicalidade da língua francesa e o resultado é paixão com uma pitada de sensualidade. Ouça Françoise Hard e pense no seu amor... ou no lindo vestido novo que você vai comprar. Aconselhamos a segunda opção. É só acessar o nosso site e fazer o seu pedido: www.ateliebabayaga.com.br. Um beijo.
Meu pai era o cara das azeitonas. Comia as que deixávamos no prato, sempre que a nossa refeição era uma pizza. Depois que ele se foi, uma azeitona dando sopa num prato vazio, tornou-se a materialização de sua ausência e, ao mesmo tempo, de sua presença forte na família.
Era, também, um contador de histórias. Muitas. Geralmente, quando voltava de algum encontro com os amigos e compadres de cachaça, trazia alguma informação engraçada ou inusitada. Aliás, quando o álcool chegava naquele grau de causar alegria e solidariedade fraterna, meu pai costumava arranjar padrinhos para os filhos. O problema é que éramos, apenas três e os amigos eram muitos. Sem contar que a mãe das crianças nunca era consultada.
Nos aniversários, costumávamos acordar ao som da sanfona. Mais ou menos às seis da manhã, ele entrava no quarto tocando e cantando parabéns. Tentei aprender, mas nunca entendi como sincronizar os 120 baixos (aqueles botõezinhos pretos), todos iguais, com o teclado e, ainda, abrir e fechar o fole. É necessário muita coordenação motora e os conhecimentos musicais dele eram totalmente instintivos para que pudesse me explicar essa dinâmica de uma forma didática.
Tenho lembranças fantásticas da infância que, por mais que pareçam triviais, me causavam um sentimento muito bom e não lembro ter revivido algo parecido depois de adulta. Uma delas é saindo da igreja, com ele, para comprar um bombom que vinha com um anel de plástico de brinde. Eu tinha de todas as cores. Ganhava um por domingo e aquilo era maravilhoso. Eu brincava de ser rica com uma jóia valiosa.
Meu pai também foi o dentista extra-oficial dos filhos. Ele tinha um certo prazer sádico em arrancar nossos dentes de leite. Pedia só para ver se já estavam moles o bastante e, aproveitava, e empurrava o dedão. E, acabou participando diretamente das nossas mudanças dos dentes. Hoje, as crianças colocam embaixo do travesseiro para a fada do dente levar e deixar, em troca, uma moeda. No meu tempo não tinha essa fantasia. Era quase uma cerimônia de iniciação tribal, com direito a uma espécie de ritual. Era para girar três vezes com o dente na mão dizendo 'morão morão, pegue seu dente podre e me dê o meu são' e, depois disso, jogá-lo no telhado de casa. Lembro como a cena de um filme.
Na minha infância, fomos muito parceiros, principalmente, nos sábados. Era um lazer, para mim, acordar de madrugada para ir fazer a feira de frutas e verduras no mercado público. Mainha ia colocando a mão na massa, escolhendo, contando, mandando pesar as coisas, enquanto eu e painho bebíamos um caldo de mocotó num restaurante bem popular. Eu era pequena, mas também era uma tracinha porque eu sempre repetia. Depois de adulta, cortei as carnes de gado da alimentação, mas quando lembro desse caldo e dos mocotós, num prato duralex colorido, tenho uma imensa sensação de prazer.
Os cientistas dizem que somos constituídos de átomos. Mais que isso, nós somos feitos de histórias. E de história em história crescemos, viramos adultos e moldamos o nosso caráter. Uma presença paterna tem papel fundamental nesse processo.
Parabéns aos pais que fazem com que o filho acredite que é o personagem principal desse enredo diário e que, naturalmente, revertem os pequenos momentos em maiores lembranças.
Medalha de prata, mas para ele eu sempre estava nos primeiros lugares.
Feliz aniversário com sanfona
Parabéns. Aniversário de Rafael, em cima da cama e com direito a forró.
Raquel, Joaquim, Rafael, Lourdinha e dentro da barriga, Rodolfo.
Rodolfo, finalmente, nasceu e nasceu palhaço. Eu me identificava com a viúva Porcina e Rafael achava que morava numa batcaverna.
As valsas de formaturas de ABC são boas recordações
Partidas e chegadas. Encontros e
despedidas. Tristezas e alegrias. É assim a vida. Algo bem representado pelas
estações de trem. Uns indo embora. Outros chegando. Retornando. Algo um tanto
reflexivo. Filosófico.
Pessoalmente, a imagem de trilhos
sempre me causou uma sensação de perspectiva, futuro, ir em frente, chegar
longe. Algo muito bom de se sentir.
Cresci numa rua que ficava em
frente a um trecho da linha do trem. Lembro de alguns vagões carregados de
pedras. E, como não era algo freqüente, o som dos vagões passando tirava todo
mundo de dentro das casas. Grande parte da rua ficava admirando a cena. Lembro, também, que os vagões eram avermelhados e que tinham bem grande o nome RFFSA.
Eu tinha um desejo, apesar de
achá-lo impossível, de seguir algum trecho de trem. E várias vezes
sonhei(literalmente) viajando em um. Por incrível que pareça, ainda hoje sonho
com trens. Infelizmente, nunca estou dentro deles, só do lado de fora olhando.
Depois de adulta, o destino me
colocou em contato, novamente, com essa história de trem e trilhos. Recebi um
convite para administrar um antigo armazém pertencente a essa mesma linha e que
seria transformado em um centro de cultura. Logo, quis conhecer a história daquilo
tudo. Armazém, estação, locomotivas, maria fumaça, vagões. Então, fiz uma
pesquisa com alguns ferroviários aposentados que residiam na cidade.
A Estação
Ferroviária de Salgueiro, inaugurada em 1962, é o fim da Linha Centro, que
ligava o litoral pernambucano ao Sertão. De fato, é o que podemos chamar
literalmente “o fim da linha”, pois o projeto ficou inacabado. A proposta
inicial era continuar o trajeto até Missão Velha, no Ceará. Esse intento, no
entanto, nunca foi concretizado. E o lugarzinho onde os trilhos acabam, ficou sendo chamado de corte.
Nossa programação
de domingo, hoje, foi fazer um pic nic em uma dessas muitas estações entre
Salgueiro e Recife. Distante 15
km da área urbana. Abandonada e em ruínas. Mesmo assim,
dá para sentir toda a energia do que aquilo representou e testemunhou. O nome,
na fachada do prédio, ainda está intacto. Engenheiro Arlindo Luz. Quem teria
sido? Merece uma pesquisa. De acordo com os ferroviários com quem conversei, é
a 43ª estação desde Recife. A seguinte, e última, é a de Salgueiro, onde,
atualmente, funciona uma secretaria municipal.
As casas, onde
os ferroviários residiam, ainda permanecem lá, mas, igualmente, em situação de
deterioração.
Entre as músicas
mais bonitas de Milton Nascimento, uma, em especial, traduz um pouco desse
romantismo e simbolismo das estações de trem e me marcou muito, na
morte do meu pai. Uma bela composição chamada Encontros e Despedidas. Ajudou-me
a compreender o processo natural da vida. Perdas e ganhos. Nascimentos e
mortes. Idas e vindas. Alegrias e tristezas. Meu pai partia ao mesmo tempo em
que muitos acabavam de chegar ao mundo. E na mesma estação, que é a vida.
Todos
os dias é um vai-e-vem A vida se repete na estação Tem gente que chega pra ficar Tem gente que vai pra nunca mais
E é bonito perceber
que o trem que chega é o mesmo que parte.
Pois bem. Embaixo de
um pé de algaroba, sobre os trilhos de ferro e os dormentes de madeira, inspirados,
mesmo que inconscientemente por todos esses simbolismos, improvisamos uma
refeição bem típica de nossa região. Uma deliciosa galinha de capoeira, baião
de dois e farofa de cuscuz. Muitas conversas. Bastantes risadas.
E o lugar do
abandono, pelo menos hoje, foi povoado por um encontro entre amigos.
Perspectiva
Lá em cima, ainda conservado: Engenheiro Arlindo Luz
Fachada em 2013. 15 km da zona urbana de Salgueiro
Fachada em 1960
Estação, pelo lado de dentro
Casa dos ferroviários em ruínas
Galinha de capoeira, cuscuz e baião de dois
Já que o trem não passa mais...
É (foi?) a 43ª estação da linha Recife-Salgueiro
Equilíbrio
Fundos da Estação. Percebam, em segundo plano, as casas dos ferroviários
Jéssica, Nih, Bruno, Willy, Raquel
Encontros e Despedidas. interpretação de Maria Rita.
Até pouco tempo, a maioria das mulheres tinha uma máquina de costura em casa. Sempre há uma bainha para ser feita, uma alça para ser diminuída, um vestido para ser ajustado. A praticidade dos tempos mais modernos, no entanto, contribuiu para o surgimento de oficinas de conserto onde uma profissional faz o trabalho e recebe por ele.
Durante muitos anos, vesti roupas feitas pela minha avó. Fui crescendo e troquei a alfaiataria pelas peças industrializadas. Com a produção em larga escala e a emancipação feminina, as máquinas começaram a ser aposentadas nos lares e, hoje, é muito difícil encontrar uma mulher que costure sem fins profissionais.
Imagino que criar e produzir, pessoalmente, as roupas dos filhos e do marido deva ser algo muito prazeroso. E, claro, fazer o próprio figurino, receber elogios e responder sempre com vaidosos 'fui eu quem fiz'.
Sabrina casou em novembro do ano passado, na Catedral de Santo Antonio, em Salgueiro, e teve o privilégio de responder aos elogios com emotivos 'foi minha mãe quem fez'. Uma enorme prova de carinho. Aliás, os vestidos das daminhas, que ficaram primorosos, também foram confeccionados por ela.
A mãe de Sabrina é empresária e não vê incompatibilidade em ter sucesso profissional e cultivar dotes femininos. Lêda, também já foi noiva, casou em julho de 2002 e costurou e bordou o próprio vestido de casamento, além das roupas das daminhas, da sogra, da mãe e das duas filhas. Um gesto de afetividade simbolizado na herança deixada pela avó, uma máquina de costura, bem diferente dos modelos atuais, com poucas funções e, inutilizada pelo passar dos anos. Mas, sem dúvida, algo que representa muito para Sabrina, Lêda e toda a família.
Sabrina: vestida de carinho
'Foi minha mãe quem fez'
Cumplicidade que faz toda a diferença num dia tão importante
Pétalas para Sabrina
Daminhas vestidas pela mãe da noiva
Irmanzinha da noiva, Laís, também pode dizer 'foi minha mãe quem fez'
A mãe de Sabrina também já foi noiva e pode fazer inveja: 'fui eu quem fiz'
Daminhas de Lêda por Lêda. O noivo, Clélio.
Lêda, entre Synara e Sabrina, em 2002. A noiva confeccionou o figurino das duas filhas.